quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A IMPLOSÃO DA MENTIRA

Pintura: Miró

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
E hoje mentem novamente. Mentem
De corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
Que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune / mente.
Não mentem tristes. Alegremente
Mentem. Mentem tão nacional / mente
Que acham que mentindo história afora
Vão enganar a morte eterna / mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
Falam. E desfilam de tal modo nuas
Que mesmo um cego pode ver
A verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
E para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
Pela mentira, nem à democracia
Pela ditadura.
Evidente / mente a crer
Nos que me mentem
Uma flor nasceu em Hiroshima
E em Auschwitz havia um circo permanente.
Mentem. Mentem caricaturalmente:
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente,
mentem como a carroça à besta em frente.
mentem como a doença ao doente,
mentem clara / mente como o espelho transparente.
Mentem deslavada / mente, como nenhuma lavadeira
mente ao ver a nódoa sobre o linho.
Mentem com a cara limpa e nas mãos o sangue quente.
Mentem Ardente / mente como um doente nos seus
instantes de febre. Mentem fabulosa / mente como o
caçador que quer passar gato por lebre. E nessa trilha de mentira
A caça é que caça o caçador com a armadilha.
E assim cada qual mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical? mente,
mente incontinente? mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava / mente
constroem um país de mentira
diária / mente.
Alinhar à direita

(Affonso Romano de Sant' Anna)

Inspiração absoluta para nossa montagem de Pinocchio

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